terça-feira, 10 de abril de 2012

Modernidade

   Palavras


   Música no turbilhão
   Palavra comida
   A fumaça do seu cigarro
   só faz aumentar minha agonia.
   Falta me música, alimentos palavras.
   As pessoas não dizem, murmuram.
   Se coçam, se enroscam, mas não dizem.
   Estão ocupadas demais, não ouvem.
   São gravuras, não desenhos.
   São gravuras tediosas que não ouvem,
   grunhem, gargalham e desaparecem.


Elizângela Freitas / 1999


sexta-feira, 23 de março de 2012

Se tivesses vindo...



Se tivesses vindo
eu teria sentido
você teria sentido
o perfume de minha pele
o barulho de meus cabelos
a maciez do meu colo

Saberias então
A delicadeza de meus dedos
Onde guardo meus segredos
E escondo ilusões

Se tivesses vindo
você teria descoberto
eu teria descoberto
Os sonhos que te rodeiam
Onde guarda tua canção

Saberia agora
A firmeza de seu braço
A largura de seus ombros
O calor de teu abraço

Se tivesses vindo
Eu não estaria agora
Bloqueando você
Excluindo você
Esquecendo você


Elizângela Marçal
out/2011


sexta-feira, 2 de março de 2012

In Europe





















POR QUE TODOS OS LUGARES NÃO SÃO EUROPA?
POR QUE NOSSAS CASAS TEM MUROS?
POR QUE SE FICA TRINTA ANOS NO PODER?
POR QUE SE ESPERA TANTO PRA IR À PRAÇA?
POR QUE TAMBÉM NÃO VAMOS À PRAÇA?
POR QUE TEMOS POPULARES AO INVÉS DE JAGUAR?
POR QUE O AMOR ACABA?
POR QUE OS FILHOS CRESCEM?
POR QUE OS TUNISIANOS QUEREM IR PRA ITÁLIA?
POR QUE AS PORTAS NÃO ESTÃO ABERTAS?
POR QUE TRABALHAMOS TANTO?
POR QUE OS BOLCHEVIQUES NÃO VENCERAM?
POR QUE O CAPITALISMO É SELVAGEM?
POR QUE PORTUGAL E NÃO HOLANDA?
POR QUE VAN GOGH E NÃO MILLET?
POR QUE UMAS USAM BURCAS E OUTRAS VITRINES?
POR QUE ARROZ E NÃO BATATAS?
POR QUE TANTA FARTURA E TANTA FALTA?

14/02/2011





sábado, 25 de fevereiro de 2012

Menino dormindo no berço


Hoje me bateu uma saudade...

Vi a blusinha de uniforme do meu pequeno no varal e fiquei tocada. Outro dia mesmo era a blusa do mais velho, secando para ele ir à aula. Ele estava com uns 04 aninhos, e este agora, nem largou a mamadeira e já está na escola. Aí é que bateu a saudade... 

Saudade de criança, que ficava no terreiro riscando o chão enquanto a mãe conversava na cerca, de tomar banho de bacia com um pano tapando os olhos pro sabão não arder, de ouvir a mãe gritando que o almoço estava pronto e fazer hora pra lavar as mãos. 

Saudade da cabeça apertada na barriga da mãe enquanto ela desembaraçava os cabelos e dizia "tô acabando". Saudade de sentar na porta da cozinha com o prato entre as pernas, pois à mesa não havia lugar pra todos… 

Saudade de família que era família o tempo todo e não somente à noite…




Menino dormindo no berço
 
Meu garoto
Pra que tanto viço
Pra que tanta beleza
Por que tantos sorrisos
E esse sono macio?
 
As pedras, meu filho, aparecem
A tristeza não diz adeus
As mãos se fecham
E os caminhos
Ah, os caminhos não se cruzam
 
Dorme meu filho,
Pois ele vem vindo...

Elizangela Freitas Marçal/2005